Ah, as peculiaridades da nossa língua. Acho tão legal algumas coisas nela que resolvi comentar. Os enganos, singularidades e regras que ninguém sabe são meu cardápio neste texto.
Primeiro, os enganos. Tenho percebido que muita gente emprega a palavra "luxúria" no sentido de nababesco, de gente que só pensa em viver e exibir uma vida luxuosa e não se importa com a miséria do mundo. Aliás, é feia a palavra e o sentido pejorativo de nababesco, mas gosto desta palavra, rsrs.
O verdadeiro significado de luxúria não tem nada a ver com luxo. É a atração pelos prazeres carnais, lascívia, sensualidade. Ou seja, o pecado da luxúria não está relacionado a riquezas, mas ao sexo promíscuo.
Segundo engano: a palavra "pródigo". A parábola do filho pródigo deixou uma confusão de sentidos, e hoje muita gente pensa que é o filho que vai embora de casa. Pródigo significa esbanjador, que gasta mais do que pode, que gasta irresponsavelmente. Mas a fama de filho "abandonador" (este termo é meu) foi tão grande que pródigo acabou virando sinônimo de "desnaturado".
Agora, as singularidades. Na realidade, uma palavra plural que é singular: "quaisquer". Digam-me se existe outra palavra com o "s" do plural bem no meio. Veja bem: o plural de "qualquer" não é "qualqueres", é "quaisquer", o "s" divide a palavra bem no meio.
Palavras que só falamos no plural há aos montes: óculos, cócegas, parabéns, férias. mas, "quaisquer", desafio a quaisquer uns de vocês a me encontrar outra igual a ela.
Outra singularidade: é possível se escrever um texto perfeitamente compreensìvel apenas com palavras que comecem com a letra "P". Veja este blog e comprove: http://escl79.blogspot.com/2009/05/singularidades-da-lingua-portuguesa.html
Agora, as regras. Ou melhor, a falta delas. Há coisas na língua portuguesa que usamos muito bem sem precisar das regras, porque, quando vamos tentar entendê-las, vai dar é um nó na cabeça e a gente pode acabar desaprendendo. Uma das coisas que mais me encuca: eu sei usar "está" e "estar" mas eu não sei explicar a regra, tenho é preguiça, porque pra mim é uma chatice: tente trocar o infinitivo é blá-blá-blá... A forma flexionada blá-blá-blá. Taí uma coisa que aprendi sem entender a regra, e me fez muito bem. Esta, literalmente, foi uma exceção à REGRA. Falar em exceção, pra quê tanta letra para um fonema só?
Seja bem-vindo
Olá, sou Eduardo de Castro Gomes. Pretendo discutir aqui primordialmente questões sobre redação. Não se trata de um aprofundamento em gramática ou linguística, mas, sim de se abordar temas como a dificuldade e as motivações para escrever, como desenvolver temas, como expor as ideias por escrito, como finalizar um texto, tipos de texto, etc.
Também estão publicadas opiniões e experiências sobre educação, política, sociedade, fé.
Espero que apreciem e que sua visita seja proveitosa.
Obrigado.
18 de mai. de 2012
A maldição do Gerúndio

Sabe aquela coisa que depois de feita, parece não lhe largar?
Alguns dias atrás postei sobre o que eu achava do gerúndio (se quiser, leia aqui: O gerúndio está sangrando). Escrevi que não lembrava de ter ouvido muito as pessoas falarem "vou estar ...ndo", porque eu não ouvia mesmo.
E continuo dizendo: se eu estou dizendo, eu estou dizendo, e, não, "a dizer". Mas, também escrevi que eu prefiro "eu vou estudar", a "eu vou estar estudando". Claro, eu não sou tããão "desgramaticado" assim.
Bom, não sei se foi castigo, mas, de lá pra cá a maldição do Gerúndio me persegue. Quase todo dia agora eu ouço um "estar ...ndo". Agora mesmo, ao telefone, falando com uma atendente da Net, ela me disparou dois "...ndos":
"Vou estar enviando"
e
"O Sr. pode estar confirmando".
Uns dois dias aí, uma atendente de uma universidade me falou outro "estar confirmando", e houve mais uns dois "estar alguma coisa ando", que eu não lembro muito bem...
Acho que nessa sexta-feira vou estar passando na sessão do descarrego!
Já fomos mais inteligentes
Foi o comentário do Carlos Nascimento no Jornal do SBT (clique e veja a matéria) sobre a enxurrada da mídia no tal caso de estupro no BBB, e sobre a Luiza que já voltou do Canadá (país que eu acho um exemplo).
Sem eu ter visto a matéria do Jornal do SBT, postei um comentário no Facebook exatamente a respeito dos dois casos. Disse que, talvez, se o cara do BBB e a Luiza falassem do que fizeram a Cidinha Campos, o Dom Manoel Edmilson da Cruz e a Amanda Gurgel, que não estão no Canadá, estes três conseguiriam ver seus atos surtindo efeito na nação. Pra mim, eles sim, são as celebridades a serem amplamente exploradas pela mídia. Leiam meu texto "retrospectiva 2011", pra ver o que eles fizeram.
O problema é que o povo dá mais ênfase a um texto inócuo de comercial e a um treco do BBB. Muita gente gostaria de ver repercutir até dar resultado no país a coragem do que esses três fizeram, eu sei, mas o que eles fizeram não tem a mesma "graça" da Luiza nem do BBB, não são interessantes para a mídia. Já pensaram se o povo todo se movimentasse num: "Cria vergonha, Brasil", como se movimenta nessas futilidades? A maioria do povo realmente é alienada, ou será que fiquei muito chato?
Sem eu ter visto a matéria do Jornal do SBT, postei um comentário no Facebook exatamente a respeito dos dois casos. Disse que, talvez, se o cara do BBB e a Luiza falassem do que fizeram a Cidinha Campos, o Dom Manoel Edmilson da Cruz e a Amanda Gurgel, que não estão no Canadá, estes três conseguiriam ver seus atos surtindo efeito na nação. Pra mim, eles sim, são as celebridades a serem amplamente exploradas pela mídia. Leiam meu texto "retrospectiva 2011", pra ver o que eles fizeram.
O problema é que o povo dá mais ênfase a um texto inócuo de comercial e a um treco do BBB. Muita gente gostaria de ver repercutir até dar resultado no país a coragem do que esses três fizeram, eu sei, mas o que eles fizeram não tem a mesma "graça" da Luiza nem do BBB, não são interessantes para a mídia. Já pensaram se o povo todo se movimentasse num: "Cria vergonha, Brasil", como se movimenta nessas futilidades? A maioria do povo realmente é alienada, ou será que fiquei muito chato?
11 de mai. de 2012
Haitianos:
sobrevivência não escolhe emprego
Considero que estou vivenciando um momento histórico-social-humanitário na minha cidade. Um fenômeno de imigração que mudou a paisagem humana (se é que existe esse termo) na minha vizinhança: cerca de cinco mil haitianos estão em Manaus. E cada vez chegam mais.
Eles são sobreviventes de um país destruído por um terremoto de dimensões das catástrofes Holywoodianas. Chegam e são acolhidos por uma igreja católica, responsável por "gerenciar" a vida deles por aqui. Parabéns às pessoas da Paróquia de São Geraldo, que estão pondo em prática o que Jesus falou: "fui estrangeiro e me acolheste".
Fico imaginando as imaginações deles. Perderam família, casas, trabalho, escola, tudo. Saíram de uma vida, não sei se boa, mas dramaticamente traumatizada. Fico imaginando, mas contraditoriamente não quero nem pensar o que é viver o que eles viveram por ocasião do terremoto e a expectativa do que a vida vai lhes trazer.
Eles são sobreviventes de um país destruído por um terremoto de dimensões das catástrofes Holywoodianas. Chegam e são acolhidos por uma igreja católica, responsável por "gerenciar" a vida deles por aqui. Parabéns às pessoas da Paróquia de São Geraldo, que estão pondo em prática o que Jesus falou: "fui estrangeiro e me acolheste".
Fico imaginando as imaginações deles. Perderam família, casas, trabalho, escola, tudo. Saíram de uma vida, não sei se boa, mas dramaticamente traumatizada. Fico imaginando, mas contraditoriamente não quero nem pensar o que é viver o que eles viveram por ocasião do terremoto e a expectativa do que a vida vai lhes trazer.

Em Manaus (Foto: Internet)
Lentamente estão conseguindo emprego aqui, já os vemos como frentistas em postos de gasolina, ajudantes de pedreiros, atendentes. Bom é saber que Manaus tem se tornado abrigo, mas algumas coisas me deixam assombrado, quando vejo notícias de desumanidade.
(Foto: Internet)
"Crianças presenciam o estupro de suas mães por coiotes", li em uma manchete na Internet. É de fazer a gente desacreditar no ser humano. Dá vontade de soterrar esses suejitos sob os escombros do Haiti. Só Jesus na minha vida.
E esse não é o único tipo de humilhação sofrida por quem já veio de uma destruição. Dia desses li um comentário sobre os trabalhos que estão sendo conseguidos para os refugiados: "esses haitianos só vieram aqui tomar nossos empregos".
Fiquei indignado, e ao mesmo tempo questionei: se esse cidadão que falou isso mora aqui, não passou por um terremoto, não passou as dificuldades desse povo, e não conseguiu emprego como eles, alguma está errada, e não é com os haitianos.
- É que os haitianos não escolhem empregos - disse a Cleise, minha esposa.
E esse não é o único tipo de humilhação sofrida por quem já veio de uma destruição. Dia desses li um comentário sobre os trabalhos que estão sendo conseguidos para os refugiados: "esses haitianos só vieram aqui tomar nossos empregos".
Fiquei indignado, e ao mesmo tempo questionei: se esse cidadão que falou isso mora aqui, não passou por um terremoto, não passou as dificuldades desse povo, e não conseguiu emprego como eles, alguma está errada, e não é com os haitianos.
- É que os haitianos não escolhem empregos - disse a Cleise, minha esposa.
No Haiti (Foto: Internet)

Em Manaus (Foto: Diario do Amazonas - D24AM)
Com certeza. Estou literalmente vendo isso: Quase todos os dias eles estão com suas pastinhas de documentos andando pra lá e pra cá, num reinício de vida. Mas não vejo ninguém da terra fazendo o mesmo.Em Manaus (Foto: Diario do Amazonas - D24AM)
Enquanto muita gente aqui se queixa de não arranjar um emprego, mas "não aceita qualquer um", aquele povo, que sabe o que é "sofrimento coletivo", está vindo, conseguindo suas carteiras de trabalho e construindo uma nova vida. De qualquer forma, por ser uma cidade que está acolhendo os haitianos, parabéns, Manaus. Esperemos que todos tenhamos uma vida mais digna
15 de mar. de 2012
3 de fev. de 2012
Professor: dispensável
Creio que fui dispensado de uma universidade particular, há uns seis anos, porque dei notas reais para meus alunos de Oficina de Redação.
Por misericórdia, dei nota 5 para eles, a mínima para passarem. Raríssimos, acho que só um, aliás, sabia escrever bem. Outro, muito bom na área dele, tecnológica, era péssimo na escrita. Perguntei-lhe se houve prova de redação no vestibular que havia feito.
- Sim, professor, eu fiz a lápis, e eu sei que 'tava' cheia de erro e passei.
Desconfio da minha despensa porque fui chamado para uma conversa com a coordenação do curso, na qual me perguntaram o que significavam aquelas notas. Falei a verdade: os alunos não sabiam escrever. Não havia como dar notas melhores. A conversa ficou nisso. Dias depois, vi em minha conta corrente uma quantia inesperada. Descobri que havia sido dispensado: era minha rescisão. Até que veio a calhar. Pagaram tudo direitinho.
Meses depois encontrei outro aluno. Ele me disse que o único professor com aula boa era eu, "e ainda mandam embora", lamentou.
Então, o problema não era eu, realmente. Vivia ouvindo de meus alunos que eu era um dos melhores professores lá. E eles eram inteligentes, na área deles. Não posso dizer que eram ignorantes. Eu, por exemplo, era mais ignorante na área da tecnologia do que eles, mas, na redação... Se eles não aprenderam a escrever em toda a vida escolar, que dura pelo menos onze anos, não iriam aprender tão rápido agora, em dois meses, com apenas 32 horas de aula.
Assim, descobri que o professor é o único profissional que, por se empenhar pela qualidade da sua produção, é totalmente dispensável para a empresa.
Por misericórdia, dei nota 5 para eles, a mínima para passarem. Raríssimos, acho que só um, aliás, sabia escrever bem. Outro, muito bom na área dele, tecnológica, era péssimo na escrita. Perguntei-lhe se houve prova de redação no vestibular que havia feito.
- Sim, professor, eu fiz a lápis, e eu sei que 'tava' cheia de erro e passei.
Desconfio da minha despensa porque fui chamado para uma conversa com a coordenação do curso, na qual me perguntaram o que significavam aquelas notas. Falei a verdade: os alunos não sabiam escrever. Não havia como dar notas melhores. A conversa ficou nisso. Dias depois, vi em minha conta corrente uma quantia inesperada. Descobri que havia sido dispensado: era minha rescisão. Até que veio a calhar. Pagaram tudo direitinho.
Meses depois encontrei outro aluno. Ele me disse que o único professor com aula boa era eu, "e ainda mandam embora", lamentou.
Então, o problema não era eu, realmente. Vivia ouvindo de meus alunos que eu era um dos melhores professores lá. E eles eram inteligentes, na área deles. Não posso dizer que eram ignorantes. Eu, por exemplo, era mais ignorante na área da tecnologia do que eles, mas, na redação... Se eles não aprenderam a escrever em toda a vida escolar, que dura pelo menos onze anos, não iriam aprender tão rápido agora, em dois meses, com apenas 32 horas de aula.
Assim, descobri que o professor é o único profissional que, por se empenhar pela qualidade da sua produção, é totalmente dispensável para a empresa.
1 de fev. de 2012
O Gerúndio está sangrando
"Tudo o que você ouvir, esteja certa, ESTAREI VIVENDO"
(Gonzaguinha)
Não sou gramático, nem linguista (sem o trema fica esquisito), por isso a opinião aqui é puro comentário de quem pensa que sabe escrever. Não é uma apologia ao uso exagerado do gerúndio, é só uma observação.
Alguns professores e gramáticos, que respeito, não o suportam. Falam como se ele fosse uma praga. O consideram tão nocivo, que esquecem de mencionar: não usarás o gerúndio DEPOIS do verbo no infinitivo e, de preferência, usá-lo-ás apenas no presente. Pelo que eu sei, os mandamentos do gerúndio se resumem nesses dois. E pronto. Não acho motivo para condená-lo.
Sinceramente, não lembro de ter visto muita gente "estar falando" nem errando tanto assim. Nem o pessoal do Telemarketing. Agora, se o sujeito não sabe o verbo no infinitivo, aí sim, temos um problema, que não é culpa do gerúndio. É um caso do ensino e da aprendizagem, da educação que vem se arrastando no país. Igual ao termo "que", que repeti sete vezes até aqui, mas agora estou com preguiça de corrigir, além da pressa em publicar o texto. Mas o "que" fica pra depois. Vamos ao que me intriga: a aversão ao gerúndio.
Se ele existe, deve ter alguma função. Eu sei que ele pode ser substituído em algumas frases. "Hoje vamos aprender" é bem melhor que "hoje vamos estar aprendendo". A frase fica menor, entendível, o que pra mim é ótimo, pois, quanto mais direta, melhor. Mas, em alguns casos, não vejo um substituto. Considero um certo exagero se execrar tanto o gerúndio como alguns fazem.
Tomando liberdade de usá-lo, por exemplo, agora, digo que estão FAZENDO tempestade em copo d'água. Não é melhor do que "estão A FAZER tempestade em copo d'água"? A não ser que você seja português ou de um país que se fale o português de Portugal.
Acho estranho quando instalo algum programa no PC e o aviso diz: "A completar a instalação". Seria mais familiar se fosse "completando a instalação". Afinal, não é isso que está acontecendo (ou seria "está a acontecer"?) naquele momento: a instalação não está sendo completada? Ou a instalação estaria a completar?
Gerúndio é questão de tempo, lugar e ocasião. Em outras palavras, contexto. Exemplo: Eu estou escrevendo este texto agora (aliás, digitando). Se eu disser "eu escrevo este texto agora", pode sugerir que a partir deste momento quem vai escrever sou eu, em oposição a que outra pessoa escreva.
Vejam isso:
"Para sua segurança, este estabelecimento está sendo filmado".
Agora vamos tirar o gerúndio:
"Para sua segurança, este estabelecimento está... ãh... a ser film..., quer dizer... filmamos este estabelecimento". Ok, legal, mas, filmaram quando? Ontem? Eu nem vim aqui. Hoje de manhã? Agora?
E vejam isso:
"Para sua segurança, esta ligação está sendo gravada".
Vamos lá:
"Para sua segurança, esta ligação... ãh... eh... é gravada do começo ao fim".
Hum?
E o que seria de uma das músicas mais lindas da MPB, se não fosse o gerúndio? Tente cantar "Sangrando" de Gonzaguinha, sem o gerúndio! Vamos agora estar fazendo (eheheheh, brincadeirinha), uma experiência: cantar essa música transformando todos os gerúndios. Lá vai:
A sangrar
Quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda
Que palavra por palavra eis aqui uma pessoa a se entregaaaaar
Coração na boca, peito aberto, vou a sangraaaar
São as lutas dessa nossa vida, que eu estou a cantaaarrr
Quando eu abrir a minha garganta, essa força tanta
Tudo o que você ouvir, esteja certa, estarei a viveeerrr
Veja o brilho dos meus olhos e o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado, a transbordar toda a raça e emoção...
Então, vai estar indo para o trono ou não vai?
Contanto que não haja ofensas, podem me criticar à vontade. Numa dessas, alguém pode convencer. Se for eu o exagerado, ou se entendi errado, me corrijam, estou aqui para aprender. E aprender, dizem, "a gente aprende errando"... ou seria, "a errar"?
(Gonzaguinha)
Não sou gramático, nem linguista (sem o trema fica esquisito), por isso a opinião aqui é puro comentário de quem pensa que sabe escrever. Não é uma apologia ao uso exagerado do gerúndio, é só uma observação.
Alguns professores e gramáticos, que respeito, não o suportam. Falam como se ele fosse uma praga. O consideram tão nocivo, que esquecem de mencionar: não usarás o gerúndio DEPOIS do verbo no infinitivo e, de preferência, usá-lo-ás apenas no presente. Pelo que eu sei, os mandamentos do gerúndio se resumem nesses dois. E pronto. Não acho motivo para condená-lo.
Sinceramente, não lembro de ter visto muita gente "estar falando" nem errando tanto assim. Nem o pessoal do Telemarketing. Agora, se o sujeito não sabe o verbo no infinitivo, aí sim, temos um problema, que não é culpa do gerúndio. É um caso do ensino e da aprendizagem, da educação que vem se arrastando no país. Igual ao termo "que", que repeti sete vezes até aqui, mas agora estou com preguiça de corrigir, além da pressa em publicar o texto. Mas o "que" fica pra depois. Vamos ao que me intriga: a aversão ao gerúndio.
Se ele existe, deve ter alguma função. Eu sei que ele pode ser substituído em algumas frases. "Hoje vamos aprender" é bem melhor que "hoje vamos estar aprendendo". A frase fica menor, entendível, o que pra mim é ótimo, pois, quanto mais direta, melhor. Mas, em alguns casos, não vejo um substituto. Considero um certo exagero se execrar tanto o gerúndio como alguns fazem.
Tomando liberdade de usá-lo, por exemplo, agora, digo que estão FAZENDO tempestade em copo d'água. Não é melhor do que "estão A FAZER tempestade em copo d'água"? A não ser que você seja português ou de um país que se fale o português de Portugal.
Acho estranho quando instalo algum programa no PC e o aviso diz: "A completar a instalação". Seria mais familiar se fosse "completando a instalação". Afinal, não é isso que está acontecendo (ou seria "está a acontecer"?) naquele momento: a instalação não está sendo completada? Ou a instalação estaria a completar?
Gerúndio é questão de tempo, lugar e ocasião. Em outras palavras, contexto. Exemplo: Eu estou escrevendo este texto agora (aliás, digitando). Se eu disser "eu escrevo este texto agora", pode sugerir que a partir deste momento quem vai escrever sou eu, em oposição a que outra pessoa escreva.
Vejam isso:
"Para sua segurança, este estabelecimento está sendo filmado".
Agora vamos tirar o gerúndio:
"Para sua segurança, este estabelecimento está... ãh... a ser film..., quer dizer... filmamos este estabelecimento". Ok, legal, mas, filmaram quando? Ontem? Eu nem vim aqui. Hoje de manhã? Agora?
E vejam isso:
"Para sua segurança, esta ligação está sendo gravada".
Vamos lá:
"Para sua segurança, esta ligação... ãh... eh... é gravada do começo ao fim".
Hum?
E o que seria de uma das músicas mais lindas da MPB, se não fosse o gerúndio? Tente cantar "Sangrando" de Gonzaguinha, sem o gerúndio! Vamos agora estar fazendo (eheheheh, brincadeirinha), uma experiência: cantar essa música transformando todos os gerúndios. Lá vai:
A sangrar
Quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda
Que palavra por palavra eis aqui uma pessoa a se entregaaaaar
Coração na boca, peito aberto, vou a sangraaaar
São as lutas dessa nossa vida, que eu estou a cantaaarrr
Quando eu abrir a minha garganta, essa força tanta
Tudo o que você ouvir, esteja certa, estarei a viveeerrr
Veja o brilho dos meus olhos e o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado, a transbordar toda a raça e emoção...
Então, vai estar indo para o trono ou não vai?
Contanto que não haja ofensas, podem me criticar à vontade. Numa dessas, alguém pode convencer. Se for eu o exagerado, ou se entendi errado, me corrijam, estou aqui para aprender. E aprender, dizem, "a gente aprende errando"... ou seria, "a errar"?
19 de set. de 2011
Você ri das frases de vestibular?
"Tenho-me esforçado por não rir das ações humanas, por não deplorá-las nem odiá-las, mas por entendê-las" (Spinoza apud Bagno, 2004, p. 5).
Esta é uma opinião sobre a escrita e o sistema educacional. Estive pensando muito (novamente) sobre as redações de vestibular usadas como alvos hilários de sites de humor. Desta vez vasculhei comunidades do Orkut para ver como andavam as observações sobre tais textos. O resultado foi o mesmo do tempo de minha dissertação de mestrado "O ser, o ciberespaço e a produção do texto" feita há cinco anos, ou seja, nada de se verificar as causas de tantas atrocidades, apenas mais reações "gargalhantes" ao pândego.
Nada sobre o que se pode fazer e, sim, sarcasmos direcionados aos vestibulandos. Então descobri que nós, os "cultos", que nos julgamos acima desses "reles" semi-analfabetos, também podemos nos chamar de sádicos pseudo-eruditos, pois sentimos prazer nos erros redacionais dos outros (eu também me incluo nesses, pois também não resisto àquelas tiradas), como se nós mesmos nunca os tivéssemos cometido, e ainda cometemos.
Coincidentemente, recebi em meu e-mail hoje, no momento em que estou redigindo este artigo, o seguinte texto quanto ao uso do termo “presidenta” (no e-mail não há identificação do autor):
"SUA EXCELÊNCIA, A SENHORA 'PRESIDENTA' DILMA
Agora, o Diário Oficial da União adotou o vocábulo presidenta nos atos e despachos iniciais de Dilma Rousseff.
As feministas do governo gostam de presidenta e as conservadoras (maioria) preferem presidente, já adotado por jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão.
Na verdade, a ordem partiu diretamente de Dilma: ela quer ser chamada de Presidenta. E ponto final.
Por oportuno, vou dar conhecimento a vocês de um texto sobre este assunto e que foi enviado pelo leitor Hélio Fontes, de Santa Catarina, intitulado Olha "a" “Vernácula”!
Vejam:
No português existem os particípios ativos como derivativos verbais.
Por exemplo: o particípio ativo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendicar é mendicante…
Qual é o particípio ativo do verbo ser? O particípio ativo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade. Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, há que se adicionar à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte. Portanto, à pessoa que preside é PRESIDENTE, e não “presidenta”, independentemente do sexo que tenha.
Se diz capela-ardente, e não capela 'ardenta'; se diz estudante, e não 'estudanta'; se diz adolescente, e não 'adolescenta'; se diz paciente, e não 'pacienta'.
Um bom exemplo seria:
'A presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta pensando ser eleganta por ser agora a representanta. Esperamos vê-la sorridenta, numa capela - ardenta, pois esta dirigenta, em atitude barbarizenta, não tem o direito de violentar o português, só para ficar contenta'."
(O texto termina aqui).
Não é minha intenção fazer partidarismo e, sim, mostrar que precisamos ter cuidado ao criticarmos a escrita ou a fala de outro. Vejam que o autor do texto usou a próclise “se diz...” no início de um parágrafo. Mesmo que aceito na linguagem falada ou escrita informal, ainda não se usa próclise na língua culta formal e, mesmo que o autor do texto em citação não estivesse sendo formal, está criticando um uso errado da língua.
Para não ser tão encrenqueiro dizendo que ninguém se manifesta contra esta situação, menciono Marcos Bagno e sua empedernida luta contra a gramática tradicional. Ele afirma termos uma história milenar de atraso no ensino da gramática e da redação que ainda não conseguimos superar... mas ele tenta:
"A gramática tradicional, que vem norteando o ensino da língua há quase dois mil anos, não é uma ciência: é uma doutrina. Como toda doutrina, ela tem seus dogmas, que devem ser aceitos sem contestação e transmitidos intactos às gerações futuras. A nomenclatura gramatical, por exemplo, que usamos até hoje – sujeito, objeto, advérbio, subjuntivo, pretérito, antônimo, preposição, artigo etc. – é a mesma proposta pelos gregos antes de Cristo. O que o ensino gramatical faz, então, é repetir esses mesmos termos, conceitos e definições, sem submetê-los a uma análise profunda" (Bagno, 2003, p. 82-3).
Acrescento Levy às palavras de Bagno: “é certo que a escola é uma instituição que há cinco mil anos se baseia no falar/ditar do mestre, na escrita manuscrita do aluno e, há quatro séculos, em um uso moderado da impressão” (Lévy, 2004, p. 8-9).
A soma das perspectivas desses dois autores traz à vista, se não uma solução, pelo menos uma causa dos problemas da fala e escrita: a cultura do comodismo e a aversão ao novo, à ousadia. E isto em uma época de mudanças “nanométricas” (este é por minha conta) em termos de comunicação. Uma das ousadias seria admitir, conforme Levy, que:
"A luz do espírito brilha mesmo onde se tenta fazer crer que não existe inteligência: “fracasso escolar”, “execução simples”, “subdesenvolvimento” etc. O juízo global de ignorância volta-se contra quem o pronuncia. Se você cometer a fraqueza de pensar que alguém é ignorante, procure em que contexto o que essa pessoa sabe é ouro" (Lévy, 2003, p. 29).
A frase principal desta citação, para mim, é “o juízo global de ignorância volta-se contra quem o pronuncia”, pois, assim como pensamos que nossos alunos não alcançam nosso pensamento, também não sabemos alcançar o deles. Não sabemos, por exemplo, como estimulá-los a gostar de saber escrever. Esse é apenas um dos problemas: não basta saber escrever, tem que se escrever bem e gostar disso, de saber escrever.
Que viciado em games não gosta de jogar? Que garota ou garoto fã de Justin Bie... Beir... Bieb... ãh, daquele menino de franja que canta, não se desespera no show, não gasta toda a mesada com cd's, dvd's, revistas sobre ele? Você conhece algum estudante assim? Já conseguiu fazer um aluno desinteressado se apaixonar pela norma culta da escrita? Acho que nem eu nem você. Não com nosso sistema de ensino.
O texto da presidente e outros me fizeram sentir como se ríssemos mesmo é de nossa própria ignorância. As redações desses candidatos a um curso superior, a suposta insistência da presidente em falar “presidenta”, o costume da próclise no início de frase tão criticado por gramáticos mostram um realidade débil do nosso ensino-aprendizagem. É a nossa realidade também, como educadores que cremos que somos.
Essas redações não são apenas textos mal feitos em papel, elas são os espelhos que refletem o resultado de nosso sistema de educação. Refletem claramente a “fuzarca” do que não conseguimos deixar claro. Paradoxal!
Em tempo, lembro que não tomo partido, mas o termo “presidenta” existe. É o feminino de presidente. Veja no Michaelis, Aurélio e Houaiss. O autor do e-mail, no mínimo, para não pagar mico, deveria se informar, para não ser um “anto”.
Referências
BAGNO, Marcos. A norma oculta: língua e poder na sociedade brasileira. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.
Lévy, Pierre. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. 4ª ed. São Paulo, Edições Loyola, 2003.
______. As tecnologias da Inteligência - o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro, Ed. 34, 1993. 13ª reimpressão, 2004.
Fonte: http://www.webartigos.com/articles/40686/1/Espelho-espelho-meu-existe-redacao-mais-bela-do-que-eu/pagina1.html#ixzz1LPfqZ2r7
12 de mar. de 2011
A escrita na História da humanidade
A escrita na História da humanidade
Eduardo de Castro Gomes
Resumo
O leitor encontrará aqui momentos importantes da escrita na História da humanidade. O texto foi redigido tendo como bases bibliográficas principais Pierre Lévy, José Juvêncio Barbosa e Charles Higounet. Apresenta o relacionamento da escrita com as seguintes áreas do conhecimento humano: ciências e literatura na Mesopotâmia, escritas sagradas do Egito, origens do alfabeto, a escrita e o comércio fenício, a inovação das vogais no alfabeto grego, a formação da língua portuguesa pela dominação romana e a formação da língua portuguesa no Brasil.
Palavras-chave: escrita, história, sociedade.Introdução
Uma contemplação cuidadosa e criativa sobre o histórico da humanidade e a informação impressa permite deduzir que esta é uma das relações mais estruturadas e antigas entre o homem e um engenho seu. Percebe-se isso ao se considerar que os laços homem-impresso existem desde antes da escrita. E até mesmo antes da comunicação verbal! Uma prova é o fato de que as mais remotas performances protagonizadas pelo homem chegaram até nós principalmente através alguma inscrição: as pinturas rupestres, por um cuidado da natureza, ainda hoje comunicam ao homem – milênios mais tarde – aspectos da vida daqueles ancestrais. Ou seja, na pré-história o ser humano já internalizava a necessidade de registros impressos.
Esses laços foram atados de tal forma na evolução humana, que até pode-se tecer uma analogia entre a história da humanidade e a aprendizagem da escrita de um indivíduo, pois do Paleolítico ao contemporâneo o homem mantém uma relação com as inscrições de forma semelhante à aprendizagem da escrita na infância. Explicando: assim como a criança mantém seus primeiros contatos com os impressos rabiscando, desenhando e reconhecendo figuras, a raça humana em sua fase “criança” (o homem das cavernas) começou a registrar sua história através de desenhos-rabiscos. E um e outro iniciam sua comunicação verbal com sons não identificáveis facilmente.
Assim, na evolução humana, a utilização dos registros impressos, sejam os pictogramas rupestres, sejam os primeiros símbolos literais dos fonemas, tornaram-se indispensáveis às relações sócio-econômico-culturais. Charles Higounet observa uma relação inseparável no triângulo história-escrita-homem:
A escrita faz de tal modo parte da nossa civilização que poderia servir de definição dela própria. A história da humanidade se divide em duas imensas eras: antes e a partir da escrita. (...) Vivemos os séculos da civilização da escrita. Todas as nossas sociedades baseiam-se sobre o escrito. A lei escrita substitui a lei oral, o contrato escrito substituiu a convenção verbal, a religião escrita se seguiu à tradição lendária. E, sobretudo não existe história que não se funde sobre textos (HIGOUNET, 2003).
O legado das cavernas
Dada a inexistência de organização e padronização nas representações gráficas das pinturas rupestres, estas não são consideradas exatamente escrita, mas criptografias aleatórias que pretendem transmitir sua mensagem, gravadas em um material da natureza. Por isso mesmo, é possível fazer uma analogia entre
aquelas gravuras e a escrita: ambos os casos buscam registrar algo, de alguma forma, para determinado grupo, para aquele momento ou para a posteridade. A antropóloga Cláudia Pires afirma:
Sobre a relação entre a «linguagem simbólica» – expressa através de símbolos abstractos pintados – e a sua intenção, digamos que foi através destas imagens que o homem entendeu que podia fazer passar uma mensagem, um pensamento, o seu estado de espírito, etc.
Estas pinturas demonstram o valor que os homens da pré-história conferiam às suas criações.
Estas pinturas demonstram o valor que os homens da pré-história conferiam às suas criações.O conjunto destes desenhos-escrita, passíveis de serem compreendidos por todos os membros de um mesmo grupo, tomam a designação de pictogramas. Pertencem, pois, ao conjunto das escritas pictográficas, que no grego significam descrição da imagem, para servir de símbolo. (PIRES, www.revista-temas.com) (negritos nossos).
As semelhanças entre as pinturas paleolíticas e a escrita também estão nos instrumentos e suportes para execução de ambas as técnicas, que trazem a mesma idéia principal, em dois momentos distantes entre si cerca de milhares de anos: um objeto com o qual se vai desenhar ou escrever (utilizando para isso pedra, materiais inorgânicos e orgânicos à base de tintas vegetais e minerais, e pena, caneta ou lápis) e outro no qual será registrado o assunto pretendido (a rocha ou um papel). Com esses instrumentos, os homens das cavernas foram os primeiros a dispor de um tipo de registro usado até hoje, a ideografia, cujo grande número de símbolos que a compõem permite que seja utilizada e interpretada em qualquer lugar onde seu significado seja correspondente, como os desenhos das placas de trânsito, por exemplo.
Portanto, as figuras rupestres talvez representem o mais remoto exemplo de que um registro impresso adquire preeminência sobre a oralidade, no que diz respeito a uma mensagem escrita permanecer o máximo possível em seu estado representativo original, suportando o tempo e condições naturais do ambiente, e permitindo que gerações milênios mais tarde apreciem e teçam conjecturas sobre uma forma social que não deixou outro vestígio, em vida, de como o homem primitivo se comportava e como observava seu meio ambiente. A arte primitiva é um legado de inscrições em rochas que desafiou o tempo, sobrevivendo há milhares de anos e ainda transmitindo informações sobre uma civilização inexistente, mesmo depois do surgimento da escrita como um marco da História.
A escrita causou uma revolução tão significativa nas comunicações, que os historiadores estabeleceram o encerramento da Pré-História e o nascimento da História no período em que o homem começou a escrever. Mas essa passagem histórica não se deu ao mesmo tempo em todas as partes do nosso planeta.
Somente muitos milênios depois a Pré-História findou na América, na África Central e na Austrália, com a conquista dessas regiões pelos europeus, a partir do século XV. Isso demonstra que por mais de cinco mil anos, a escrita manteve-se na vanguarda como um dos marcos iniciais da História. Segundo Fábio Costa Pedro e Olga M. A. Fonseca Coulon (1989), o fim da Pré-História ocorreu primeiramente no Oriente Próximo, com o surgimento da escrita ligado à evolução das primeiras civilizações urbanas, na região entre os rios Tigres e Eufrates, na Mesopotâmia, cerca de 40 séculos antes da Era Cristã.
Com essa reputação, a escrita adquiriu autonomia e independência, tornando-se objeto de necessidade de domínio mundial. Também transcendeu em fama aos seus inventores e aos que a têm aperfeiçoado no processo contínuo da evolução das civilizações. Conforme José Juvêncio Barbosa, seus criadores são completamente desconhecidos. Ironicamente, não há informações de que seus idealizadores, criadores, nem os grupos especializados que a aprimoraram ao longo da história, deixaram registrados seus nomes em algum objeto, utilizando seu próprio invento. Apesar desse anonimato, Barbosa afirma que a invenção da escrita é um dos fatos responsáveis pelos desenvolvimentos na antiguidade:
Na realidade esta, como muitas “invenções” do gênio humano, pode ser considerada como aprimoramento de algo que já era anteriormente conhecido. Infelizmente não conhecemos o nome de nenhum dos autores das reformas mais importantes na história da escrita. Seus nomes, como o de tantos outros grandes homens, responsáveis por melhorias essenciais da vida humana (como por exemplo o uso prático da roda, do arco e flecha, da embarcação a vela) perderam-se para sempre no anonimato da Antiguidade. (BARBOSA, 1991, p. 34).
Apenas se conhecem épocas, povos e locais de onde se deram os primeiros registros escritos, os chamados cuneiformes, desenvolvidos pelos sumérios na Mesopotâmia, por volta de 4.000 a.C., embora alguns historiadores situem seu aparecimento há mais de seis mil anos. Barbosa (p. 35) afirma que “o primeiro registro que se conhece é uma pequena lápide, encontrada nos alicerces de um templo em Al Ubaid. O construtor do templo escreveu nela o nome do seu rei. Esse rei pertenceu a uma dinastia entre 3150 e 3000 a.C.”.
“Mil e uma utilidades” históricas
A existência da escrita distingue-se como um marco das formas de
expressão, não apenas por sua capacidade de registrar a História, representar a fala
ou idéias, ser apreendida e decodificada pelo entendimento humano, mas também
por ultrapassar limites geográficos, sobreviver épocas, ajudar a construir ou
desconstruir culturas, universalizar religiões, idéias, pensamentos, sofrer mutações
pelas mais diversas causas, entre elas as transliterações e as traduções, e, ainda
assim, ter a possibilidade de permanecer como originalmente foi produzida.
5
O desenvolvimento dos métodos de agricultura e do comércio, e as
distâncias entre as cidades entre as quais se estabeleciam relações de troca, são
tidos como os responsáveis pelos primeiros registros escritos, ante a necessidade
de controle administrativo, de registros contábeis e de se saber com exatidão onde
se situavam os distantes pontos de abastecimento e quais as rotas a seguir para os
alcançar. Conseqüentemente, se tornou imprescindível o desenvolvimento de
sistemas de pesos e medidas, só possíveis com recurso à matemática, – que implica
também alguma forma de notação gráfica –, e de mapas e cartas.
Assim, a escrita teria sido criada primeiramente para atender a uma
necessidade prática de informação agro-comercial, em vários lugares. Lévy
estabelece paralelos entre o desenvolvimento da agricultura e o da escrita, ambas
como reformuladoras de conceitos de tempo e espaço, e esclarece que o
surgimento da escrita não foi um fato causado por uma única sociedade:
A escrita foi inventada diversas vezes e separadamente nas grandes
civilizações agrícolas da Antigüidade. Reproduz, no domínio da
comunicação, a relação com o tempo e o espaço que a agricultura havia
introduzido na ordem da subsistência alimentar (LÉVY, 1993, p. 87).
(Continua)
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